Jornal do Brasil/ 08/11/2009
No programa Conexões Urbanas (Multishow, de 30/10/2009), o coordenador do AfroReggae, José Júnior, conseguiu virar pelo avesso a pauta da mídia ao apostar na importância de mostrar a visão dos bandidos sobre a violência urbana, de onde é possível enxergar discursos surpreendentes e novos sobre essa questão difícil.
Nem sociologia, nem teoria, nem choque de ordem, as falas mais impactantes vêm dos próprios bandidos e das provocações a quente do entrevistador, sentado, propositadamente, num ângulo bem abaixo dos seus entrevistados, que ostentam armas e são filmados da cintura pra baixo, agarrados aos seus fuzis, seus “documentos de identidade”, na impossibilidade de mostrarem seus rostos.
É desse ângulo inusitado que se fazem as perguntas, num corpo a corpo direto e sem rodeios. As questões são diretas e objetivas, e as respostas perturbam os discursos clichês sobre polícia e bandidos, respostas sumárias e às vezes hesitantes.
Pergunta: por que a violência é cada vez maior nos embates nas favelas? E uma ponderação desconcertante. O bandido explica que a polícia já entra atirando nas favelas, com armamentos pesados, ou seja, não existe nenhuma logística, estratégia, inteligência na entrada da polícia nas comunidades que minimize os confrontos e trocas de tiros que matam inocentes. A resposta de um dos gerentes da boca é reveladora: atirar na polícia que já entra barbarizando com armas pesadas na favela “é nosso direito de resposta”.
Na conversa, fica claro que parte dos bandidos passou pelo Exército, serviu, formou-se lá, e perguntados sobre o que gostariam de ser se não fossem bandidos, a resposta se repete: fazer carreira no Exército ou na polícia! Ou seja, os valores da polícia e dos bandidos são muito próximos, há um mundo compartilhado aí. Um é o espelho do outro. É sabido que no Exército, no Bope, na polícia, os treinamentos são terríveis, com castigos, humilhações, violências, produzindo sujeitos com ódio, treinados para matar qualquer um.
Como esses policiais treinados para agir como assassinos (no próprio Exército e na polícia) podem ser convertidos depois em “polícia cidadã”? Essa talvez seja a questão decisiva a ser formulada à polícia e aos policiais, aos gestores e conceituadores da segurança pública. O próprio AfroReggae apontou algumas saídas concretas, como o Projeto Juventude e Polícia, de Belo Horizonte (MG).
Em outra entrevista, para o Programa de Roberto D’Avila na TV Brasil (domingo, dia 1/11/2009), José Júnior fala de seu encontro com um dos assassinos de Evandro João da Silva, o coordenador do Afroreggae morto recentemente, de forma brutal, no Centro da cidade. E faz uma diferença importante entre essa bandidagem que mora na rua, que não tem referência, que não tem paradeiro, que vive numa deriva total, mata, rouba, faz bico, e o bandido da favela, que tem uma base, um território, um mundo e uma comunidade na qual se escorar.
O bandido de rua tem ainda menos a perder, barbariza, enlouquece, mata por nada, a toa, como fez um dos assassinos de Evandro. Quem é esse assassino? Um ladrão, flanelinha, biscateiro, com sete facadas no corpo, sem referência nenhuma, de nada, fazendo pequenos serviços, para quem matar é simples parte da lida diária. A banalidade do ato rivalizando com o vazio e não-sentido da sua própria vida.
José Júnior também destaca uma questão crucial: a necessidade de injetar dinheiro na favela que não venha da venda de drogas. Botar a grana para circular lá dentro (coisa que o tráfico faz). Qual o estudo sério já feito sobre a cadeia produtiva da venda de drogas e os negócios que movimenta?
Como mudar o discurso, moralista, que demoniza as favelas como origem da violência, mas não aponta uma saída óbvia: a injeção de dinheiro nesses territórios, evitando que capitalismo da droga tenha o monopólio na produção de toda a riqueza. Dar autonomia, fazer circular dinheiro, empoderar as comunidades, são as saídas apontadas por um discurso outro, novo.
Entre todas as questões, destaco uma das propostas mais radicais e interessantes de José Júnior, fruto da sua passagem e experiência pela Colômbia, que adotou a medida. A proposta de uma anistia geral para os vendedores de drogas e traficantes. A solução colombiana produziu uma debandada do braço armado do tráfico para outras atividades e negócios legais. Política pública radical, muito mais eficiente, possivelmente, que qualquer choque de ordem simplesmente repressivo e de contenção (até quando?) com participação nos lucros de um negócio capitalista bem sucedido. Mas quem bancaria uma proposta como essa no Brasil?
As questões estão aí. Uma plataforma de ideias e proposições extremamente consistentes. Para serem debatidas, estudadas, para disputarem com os discursos meia-bomba que vemos na mídia em torno de dois ou três clichês sobre a segurança pública. Uma forma radical e inovadora de pensar e problematizar as políticas públicas.
Ivana Bentes é professora e diretora da Escola de Comunicação da UFRJ.
Texto publicado na seção SOCIEDADE ABERTA do Jornal do Brasil em 08/11/2009




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